Manoel Hygino e Shakespeare

Se há uma coisa que admiro no mundo, embora seja exatamente o que não consigo fazer, é uma pessoa entender completamente a fundo um assunto, saber tudo de uma questão definida. Já ouvi de um amigo dizer que o elogio ideal de um livro é dizer-se — “este é um livro que gostaria de ter escrito”. Para mim, o grande elogio é: o livro que eu não seria capaz de escrever, com idéias que não me poderiam nunca ter ocorrido. Quer dizer: eu admiro os que fazem aquilo que não consigo fazer. Daí admirar homens como o nosso Manoel Hygino dos Santos, que se mete a saber tudo sobre Shakespeare e escreve um livro inteiro sobre o “Hamlet”, edições MP, vasculhando erudições sem fim.

Para um homem mais ou menos pagão no assunto, como eu, são destes livros que descortinam horizontes novos e terras desconhecidas e nos quais se aprende um rol de coisas que a gente nem sabia que existiam. É claro que o assunto ajudou. Shakespeare é quase como a Bíblia: a gente pode ler a vida inteira e descobrir coisas novas. Os políticos ingleses fazem a sua formação intelectual em universidades do tipo medieval e fazem cursos de “mestrados em artes”, nome aliás medieval, e, afinal, estudam história, um pouco de Aristóteles e muito Shakespeare. É esta a base de formação dos mais práticos e inteligentes homens políticos que existem.Para um homem mais ou menos pagão no assunto, como eu, são destes livros que descortinam horizontes novos e terras desconhecidas e nos quais se aprende um rol de coisas que a gente nem sabia que existiam. É claro que o assunto ajudou. Shakespeare é quase como a Bíblia: a gente pode ler a vida inteira e descobrir coisas novas. Os políticos ingleses fazem a sua formação intelectual em universidades do tipo medieval e fazem cursos de “mestrados em artes”, nome aliás medieval, e, afinal, estudam história, um pouco de Aristóteles e muito Shakespeare. É esta a base de formação dos mais práticos e inteligentes homens políticos que existem. Creio que, lendo e relendo o grande dramaturgo, eles aprendem duas coisas. Genericamente, aprofundam-se no conhecimento da natureza humana — Shakespeare nos ensina mais sobre a alma humana do que a maioria dos livros de psicologia. E como são infinitas as tragédias políticas, elas fornecem boas lições da arte de governar.

Mas, Manoel Hygino pegou só uma delas, a mais estranha de todas, a respeito da qual já se levantaram problemas até teológicos (não seria o reflexo de uma fase católica na vida do autor?), com os mais estranhos problemas estéticos, psicológicos, políticos, etc. E históricos. Afinal, que houve de real naquela narrativa de Saxo Gramático? É todo o drama do homem em face da morte, não somente pelo monólogo do “Ser ou Não Ser”, mas também por várias questões da sobrevivência da alma etc.

Creio que os estudantes de letras de nossas faculdades de filosofia deveriam tomar este livro não somente para aprofundar um tema entre outros, como, e principalmente, para, de sua análise, aprenderem como se faz uma monografia sobre um tema de crítica e história literária.

Todos nós que lutamos para que o Brasil tenha uma Literatura, ficamos entusiasmados com a publicação de livros como este, que revelam a maturidade intelectual do nosso povo.

[Artigo escrito por João Camilo de Oliveira Torres em 11/06/1966 no Suplemento Literário do Estado de São Paulo. Este artigo fôra selecionado para compor o livro O Elogio do Conservadorismo, porém ficou fora da seleção final.]

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